Arrependo-me de não ter escrito sobre “Nanette” quando vi pela primeira vez.

Mas não vou certamente deixar passar a oportunidade agora.

Escrevo-vos ainda com as lágrimas a secar nas bochechas e com aquela sensação de formigueiro no nariz, acontece-me quando tento controlar o choro.

“Nanette” não perde o poder quando é visto pela segunda vez. Talvez ganhe algum, até.

Não sou daquelas pessoas super esotéricas que vive a pensar que os astros se alinham e que tudo tem uma explicação cósmica, mas também acho não sou desligada ao ponto de pensar que ter revisto esta lição de vida hoje, Dia Global da Dignidade, tenha sido por acaso.

Não quero entrar em grandes spoilers, acho que vos ter dito que me comovi das duas vezes que vi este comedy special pode até já ser informação a mais, por isso vou tentar aguçar-vos a curiosidade o suficiente para que tomem a decisão de o ver, mas vou tentar não estragar o que vão poder ver e ouvir.

“Nanette” é um espetáculo de stand up comedy escrito e interpretado por Hannah Gadsby, uma australiana da Tasmânia que cresceu num meio pequeno e religioso onde ser diferente saltava à vista.

Este especial de comédia foi lançado na Netflix no início do Verão (altura em que não se passa grande coisa no mundo dos conteúdos televisivos) e rapidamente ficou nas bocas do mundo.

Perdi a conta às vezes que me perguntaram se já tinha visto “Nanette” na Netflix.

E quando vi percebi porque é que não me adiantavam grande coisa e porque é que me diziam: “Então quando vires falamos sobre isso”.

Porque é preciso falar. Mas primeiro é preciso absorver.

Às vezes falamos muito mas dizemos pouca coisa. E ouvimos menos ainda.

E absorvemos zero.

Ouçam Hannah Gadsby.

Riam com ela, sim. E depois, quando forem confrontados com a “reviravolta” do espectáculo, aumentem o volume e ouçam.

Não se agarrem ao telefone para me escrever um comentário, não façam um Insta Story a relatar que estão a ver “Nanette”. Ouçam.

Ouçam até ao fim.

Sem julgar, sem começar a questionar “onde é que ela vai com isto agora?”, sem agendas nem ideias preconcebidas do que um espetáculo de stand up é suposto ser.

Abram o coração e os ouvidos.

Acho que devia criar uma nova categoria.

Andei aqui às voltas para perceber em que categoria publicar este artigo.

Nanette não é cinema, não é uma série nem é um guilty pleasure.

Stand up bem escrito e executado é um pleasure de que não me sinto minimamente guilty. Mas “Nanette” nem entraria na categoria de stand up, teria de ter uma categoria própria.

Talvez devesse criar uma categoria chamada “Obrigatório”, ou “Imperdível” e aí incluir “Nanette” e a sua genial Hannah Gadsby.

Ou, quem sabe, chamar-lhe “Lições Básicas de Humanidade Que Todos Deveriam Saber Mas Já Que Nunca as Aprenderam Vejam Isto e Absorvam Qualquer Coisinha de Útil Nesses Cérebros”. Mas isso seria longo demais.

Mas you get the point.

Ficará na categoria de “Gilty”, porque no final do dia, todos temos culpa em algum cartório.

E todos poderíamos e deveríamos fazer mais para facilitar a vida uns dos outros.

Todos merecemos viver com dignidade. Ser tratados e tratar os outros com essa mesma dignidade.

Somos todos pessoas, certo?

Deixo-vos o trailer mas se fosse a vocês não pensava muito.

Abram a Netflix e carreguem no play. Depois digam-me se não deveria ser obrigatório toda a gente ouvir esta história.

Hannah é um exemplo e guardarei sempre uma das frases que diz durante esta lição de vida:

“There is nothing stronger than a broken woman who has rebuilt herself.”

Peace out, Kidz.

MBM